A Diversidade Cultural presente na literatura Fantástica de J.R.R. Tolkien.

Information about A Diversidade Cultural presente na literatura Fantástica de J.R.R. Tolkien.

Published on July 11, 2017

Author: BrunoMoreira199

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1. FACULDADE DA ALDEIA DE CARAPICUÍBA CURSO DE LETRAS LICENCIATURA EM LÍNGUA PORTUGUESA E LÍNGUA INGLESA BRUNO MOREIRA RAMOS A DIVERSIDADE CULTURAL PRESENTE NA LITERATURA FANTÁSTICA DE J.R.R. TOLKIEN. CARAPICUÍBA 2017

2. BRUNO MOREIRA RAMOS A DIVERSIDADE CULTURAL PRESENTE NA LITERATURA FANTÁSTICA DE J.R.R. TOLKIEN. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade da Aldeia de Carapicuíba para obtenção do título de Licenciatura em Letras – Língua Portuguesa e Língua Inglesa, sob orientação do Prof. Me. Renato José de Souza. CARAPICUÍBA 2017

3. FICHA CATALOGRÁFICA RAMOS, Bruno Moreira. A diversidade cultural presente na literatura fantástica de J. R. R. Tolkien / Bruno Moreira Ramos. – Carapicuíba: 2017. 60f.; 30 cm. Orientação: Renato José de Souza. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura) – Faculdade da Aldeia de Carapicuíba. Inclui bibliografia e índice. 1.Literatura inglesa 2.Literatura fantástica 3.Diversidade cultural 4.J.R.R. Tolkien I.Título. CDD 820

4. BRUNO MOREIRA RAMOS A DIVERSIDADE CULTURAL PRESENTE NA LITERATURA FANTÁSTICA DE J.R.R. TOLKIEN. TCC aprovado como requisito parcial para obtenção do título de Licenciatura em Letras pela seguinte banca examinadora: Prof. Me. Renato José de Souza Faculdade da Aldeia de Carapicuíba ____________________________ Prof. Faculdade da Aldeia de Carapicuíba ____________________________ Prof. Faculdade da Aldeia de Carapicuíba ____________________________ CARAPICUÍBA 2017

5. À minha mãe, Aldrei Elisa Moreira, por sempre me incentivar a ler e me apresentar mundos inesquecíveis.

6. AGRADECIMENTOS Início estes agradecimentos dizendo que a experiência de cursar licenciatura em Letras muito acrescentou em minha vida, tornando-me tanto um ser humano, quanto um profissional evoluído. Realizando assim estas alegações, devo agradecer primeiramente a minha mãe Aldrei Elisa Moreira, que formada na mesma instituição me encaminhou e encorajou a enfrentar um curso, que em primeira vista, não seria a minha escolha, mas que tornou-se parte de mim, enraizando-se em minha cerne. Agradeço também a minha irmã, Brenda Moreira Ramos, e a minha avó, Diná de Jesus Fernandes, por aguentarem todos os meus chiliques pós aula, e o nervosismo em época de semestrais. Não posso fechar esta fase e esquecer do meu irmão de consideração maior, Felipe S. Lima, que em toda as vezes que precisei de ajuda para desenhar cartazes e cartoons para os seminários estava lá, sentados por horas, rabiscando e colorindo ao meu lado. E também de todas as risadas e os momentos de descompressão pós barracos de sala de aula. Ao entrar na faculdade, conheci pessoas novas, realizei conexões importantes para a minha evolução acadêmica, também presenciei e participei de conflitos, pois sabemos que o mundo não é um paraíso onde todos dançam envolta de fogueiras felizes a cantar, mas também obtive amizades de grande peso, que levarei comigo a partir deste ponto, e a estes também devo um largo muito obrigado, por todas as parcerias e seminários muito bem desenvolvidos que muito me orgulham. Obrigado ao paredão classe A, Cecília Ávila, Karen Santos Maganha e Fábio Maganha. Amo-os. Enfim, devo apontar os principais motivadores de minha evolução neste período de três anos, meus mestres, que admiro, me espelho e respeito imensamente: Prof. Cláudio Antônio Guerrero e a suas fórmulas mágicas da Língua Inglesa; Prof. Daniel Ferreira do Nascimento e os ensinamentos de como escrever formalmente; Prof. Alessandro Lopes Costa e a psicologia da educação; Profa. Kátia Cândido, com seu lindo sorriso e os contos de fadas sempre interacionais; O

7. compreensivo e sempre reforçador Prof. Valdevino, com assuntos muito interessantes e agregadores; A beleza da ilha dos amores de Camões, através das aulas da Profa. Isabelle Regina de Amorim; O sotaque britânico, o jeito canastrão e a qualidade no ensino de língua inglesa demonstrado pelo Prof. Michel França; A quebra do meu preconceito bobo com a literatura portuguesa e as inserções teatrais dentro da faculdade são méritos da Profa. Rogéria Freire. Inicialmente com poucas palavras, mas, falando muito, o Prof. Ednilson Santos me mostrou outra visão do mundo, a qual sou grato e respeito muito, libras, estudarei mais sobre; Prof. William Ruotti, um mestre a qual eu temi durante um bom tempo, que nos acompanhou do primeiro dia ao último e que me fez sorrir, chorar e surtar, mas que no fim, me fez querer ser igual a ele quando crescer. Profa. Ângela Maria Gasparetti, a professora que tenho orgulho – e permissão – de chamar de Vó, mesmo não tendo parentesco. Um sonho seria para mim, ser neto de uma senhora tão inteligente, e amante da literatura, que te fala sobre os autores como se estes, jogassem conversa fora ao seu lado acompanhados de uma xícara de café. Obrigado por me adotar, amo-te. E por fim e não menos importante, Prof. Renato José de Souza, os diálogos constantes em inglês, as aulas sobre literatura, o grande Gatsby, os conselhos profissionais, a confiança em me selecionar para lecionar aulas de nivelamento para as outras turmas, e principalmente, a paciência que manteve ao se tornar o meu orientador desta pesquisa, e durante todo o processo. Assim, finalizo este longo discurso de agradecimento, reforçando que todos contribuíram, de formas diferentes para a minha formação acadêmica, e serei eternamente grato por todas as experiências, aprendizados, broncas e avaliações que foram feitas. Vocês fizeram de mim um profissional do ensino, sendo assim, eu assumo a partir de hoje a missão de transmitir mundo à fora, os ensinamentos que me foram doados, de forma íntegra e sincera. Gratidão.

8. Sam: Isso não é justo. Na verdade, nem devíamos estar aqui. Mas estamos. É como nas grandes histórias, Sr. Frodo. As que tinham mesmo importância… eram repletas de escuridão e perigo. E, as vezes, você não queria saber o fim… porque como podiam ter um final feliz? Como podia o mundo voltar a ser o que era… depois de tanto mal? Mas, no fim, é só uma coisa passageira… essa sombra. Até a escuridão tem de passar. Um novo dia virá. E, quando o sol brilhar, brilhará ainda mais forte. Eram essas as histórias que ficavam na lembrança… Que significavam algo. Mesmo que você fosse pequeno demais para entender por quê. Mas acho, Sr. Frodo, que eu entendo, sim. Agora eu sei. As pessoas dessas histórias… tinham várias oportunidades de voltar atrás, mas não voltavam Elas seguiam em frente… porque tinham no que se agarrar. Frodo: E em que nós nos agarramos, Sam? Sam: No bem que existe neste mundo, Sr. Frodo… pelo qual vale a pena lutar. (TOLKIEN.J.R.R, O Senhor dos Anéis, As Duas Torres, 1991)

9. RESUMO Este trabalho tem por objetivo relatar a presença da diversidade cultural dentro das obras do literário britânico J.R.R Tolkien, através de estudos e análises da vida do autor, suas influências artísticas, além de demonstrar o conceito de literatura, a estrutura da literatura fantástica e suas vertentes. Este trabalho foi realizado através de pesquisas e fundamentação teórica com base em Lajolo, Todorov, Lovecraft, White e Tolkien. Palavras-chave: Literatura Inglesa. Literatura Fantástica. Diversidade Cultural. J.R.R. Tolkien.

10. ABSTRACT This paper aims to report the cultural diversity within the works of the British literary J.R.R. Tolkien, through studies and analyzes of the author's life, his artistic influences, and demonstrate the concept of literature, a structure of fantastic literature and its aspects. This work was carried out through research and theoretical foundation based on Lajolo, Todorov, Lovecraft, White and Tolkien. Keywords: English Literature. Fantastic Literature. Cultural Diversity. J.R.R. Tolkien.

11. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – A trindade fantástica…………………….…..………………………………...23 Figura 2 – John Ronald Ruel Tolkien...……….……….…………………………………26 Figura 3 – O Criador da Terra-média…….…….…………………………………………26 Figura 4 – O Mapa da Terra-média….……………………………………………………34 Figura 5 – Galadriel…………………..………….…………………………………………37 Figura 6 – Elrond…….…………....….………….…………………………………………37 Figura 7 – Thranduil……………....….………….…………………………………………37 Figura 8 – Aragorn..……………....….………….…………………………………………38 Figura 9 – Éowyn………………....….………….…………………………………………38 Figura 10 – Anões...……………....….………….………………………………………...40 Figura 11 – Gandalf.…...………....….………….………………………………………...41 Figura 12 – Radagast...…………....…...……….………………………………………...41 Figura 13 – Saruman……………..….………….…………………………………………41 Figura 14 – Barbárvore………......….………….…………………………………………46 Figura 15 – Nazgûl……………......….………….………………………………………...50 Figura 16 – Os Dragões da Terra-média..…….…………………………………………51 Figura 17 – Sauron – Vala…………………..….…………………………………………52 Figura 18 – A Ascensão……….....….………….…………….….…..……………………52 Figura 19 – O Olho de Fogo…......….………….…………………………………………52 Figura 20 – Gollum..……………......….………….………………………………….……55 Figura 21 – Sméagol...….……......….………….…………………………………………55 Figura 22 – O Um Anel…...………………………………………………………………..56

12. SUMÁRIO INTRODUÇÃO………….………………………………………………………..…………13 1. CONCEITO DE LITERATURA..….………….……………...…………………………16 1.1 Definição do fantástico………………….……………….…………………………….20 1.2 A trindade fantástica……………………………………………………………………22 2. TOLKIEN………………………………….. …………………………………………….24 3. DIVERSIDADE CULTURAL.…………..………………………………………..….….27 3.1 Uma breve visão das 3 eras da Terra-média.…..…………………………………..29 3.2 Os habitantes de Arda…………………………………………………………………35 3.2.1 Ainur…..…………………………….…………………………………………..35 3.2.2 Elfos.…..…………………………….….…………………………….……..….36 3.2.3 Homens…...…………………….…….………………………………………..37 3.2.4 Anões……..……………………….….……………………………………...…39 3.2.5 Istari…………………………………………..…………………………………40 3.2.6 Hobbits…….…………………………...……………………………………….41 3.2.7 Orcs e Eruk Hai…………………………..……………………………………43 3.2.8 Balrogs………………………………………...………………………………..45 3.2.9 Ents………..…………………..………………………………………………..45 3.2.10 Trolls……...……………………………………………………………..…….46 3.2.11 Águias……………………..…………………………………………………..47 3.2.12 Nazgûl………………………………...……………………………………….48 3.2.13 Dragões………………………………..……………………………………...50 3.2.14 Sauron…………………………………..…………………………………….52 3.2.15 Sméagol / Gollum.….…………….……….…………..………………………53 CONSIDERAÇÕES FINAIS……………………………………………………………….57 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS………………………..……………………………59

13. 13 INTRODUÇÃO Diversidade cultural é o conceito responsável por organizar, e caracterizar os diferentes aspectos que representam a cultura da população de um determinado território, através da catalogação de tradições, costumes, forma de organização politica e familiar, comidas típicas, música e linguagens utilizadas por estes. Levando esta ferramenta em consideração, este trabalho, utiliza-se das obras do autor britânico J.R.R. Tolkien para demonstrar como a mesma fora utilizada pelo autor na construção de seu universo literário, rico em diversidade. Desta forma, a Terra-média criada por Tolkien, tornou-se um grande berço de civilizações, cada uma contendo costumes e formas de interação próprios, movidos por diferentes propósitos, compostos por diferentes espécies, castas e alianças, possuindo em sua trama experiências extraídas do mundo real, vividas pelo autor, de referências literárias primitivas, ou por aqueles que o cercaram no período de sua infância, até a fase adulta. Diante dos dados citados acima, pode-se chegar a compreensão de que toda a sociedade é composta por diferentes grupos. Mesmo dentro de uma metrópole, como o estado de São Paulo, existem diversas comunidades que interagem de formas peculiares. O que não é diferente dentro da literatura fantástica, de Tolkien, que possuí grande extensão territorial. Portanto, buscou-se reunir dados e informações com o propósito de responder a seguinte questão: De que forma é composta a diversidade cultural presente na Terra-média criada por J.R.R. Tolkien? Esta pesquisa tem como objetivo analisar, por meio da leitura e fichamentos das três principais obras de Tolkien, os habitantes da Terra-média que compõem os grupos, e subgrupos interacionais, formando assim diferentes comunidades responsáveis por gerar formas de cultura diversificadas. Para alcançar este objetivo fora necessário antes realizar algumas digressões que ajudassem o leitor a compreender como estrutura-se o universo literário fantástico, para isso, questionou-se o que é literatura, as definições da

14. 14 literatura fantástica e sua trindade – Terror, Fantasia e Ficção Cientifica – o percurso de vida do autor até o momento de sua criação literária, além das funções da diversidade dentro de uma sociedade. O Universo Tolkiniano é responsável por influenciar outros autores, como, C.S. Lewis, autor de “As Crônicas de Nárnia” e George R.R. Martin, escritor das ”Crônicas de Gelo e Fogo”. Literaturas fantásticas voltada a fantasia que também possuem uma grande gama de personagens e culturas. Nesse contexto, a proposta deste trabalho científico visa descrever os padrões estabelecidos por Tolkien ao desenvolver os personagens de sua literatura e a forma com que ele os dispôs na Terra-média, reagindo assim as vontades do escritor, porém ganhando liberdade para além de seu criador por portarem características socioculturais específicas. Para a realização deste presente trabalho foram realizadas pesquisas bibliográficas, além de assuntos que melhor colaborariam para a compreensão de certos conceitos, como, a literatura e a diversidade cultural. Publicações importantes foram utilizadas – além do próprio J.R.R Tolkien, alvo da pesquisa – como por exemplo Tvetan Todorov, C.S Lewis, Michael White, Marisa Lajolo, Karin Volobeuf, Edgard Allan Poe e H.P Lovecraft. Este trabalho estrutura-se em três capítulos. São apresentados no primeiro as definições de Literatura, segundo Lajolo (1982), em seguida neste mesmo capítulo, expõe-se a concepção de Literatura Fantástica de acordo com Todorov em “Introdução à Literatura Fantástica” (2008) e as sub-vertentes deste gênero, nomeados de Trindade Fantástica. No segundo capítulo é realizada a descrição da linha do tempo que seguiu Tolkien a partir de seu nascimento, pontuando as suas perdas familiares, os desencontros e as vivências que colaboraram para a construção de seu caráter, e as experiências que o influenciaram direta ou indiretamente na escrita de suas obras, dados estes relatados na biografia autorizada escrita por White com o título “J.R.R. Tolkien o Senhor da Fantasia”(2013). No capítulo seguinte são explicados os significados da diversidade cultural dentro de sua amplitude mundial, utilizando como fundamentação documentos da UNESCO e dados qualitativos / quantitativos. É apresentado também neste capítulo a descrição dos principais fatos envolvendo as

15. 15 Três Eras da Terra-média, tendo início em sua criação através de Eru, o solitário, tendo seu fim no momento em que vemos a transmutação de um personagem específico que encerra a relevância desta narrativa. Logo após, é realizada a catalogação das criaturas conscientes que habitam o Universo Tolkiniano, levando em consideração, as suas espécies, culturas, hábitos alimentares, línguas faladas, e ações que melhor caracterizam as suas personalidades sociais. Dados estes retirados de três obras do autor alvo desta pesquisa, sendo estes “O Sillmarillion”, “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis”.

16. 16 1. CONCEITO DE LITERATURA. O que podemos compreender por arte literária e suas funções dentro da sociedade? A literatura é uma ferramenta que permeia o homem ha séculos, desde o início de sua existência, sendo utilizada com o intuito de armazenar e disseminar dados históricos e culturais, passados de uma geração para a outra, em diversos formatos. A citação "arte literária é mimese (imitação); é a arte que imita pela palavra" do filósofo da Grécia clássica Aristóteles, explicita bem esta intenção de uso, pois a partir da vida real e situações que estruturam o cotidiano pode-se criar obras literárias. É possível, entre os mais jovens, que haja certo estranhamento e dificuldade para explicar o que é literatura quando questionados, porém é importante destacar que estamos cercados por ela. Logo nas primeiras páginas da obra de Lajolo (1982), uma das referências a serem usadas para fundamentar este capítulo, encontramos a seguinte citação que diz: …a literatura existe. Ela é lida, vendida, estudada. Ela ocupa prateleiras de bibliotecas, colunas de estatísticas, horários de aulas. Fala-se dela nos jornais e na TV. Ela tem suas instituições, seus ritos, seus heróis, seus conflitos, suas existências. Ela é vivida cotidianamente pelo homem civilizado e contemporânea como uma experiência específica que não se assemelha a nenhuma outra. (R. Escarpit, Le Littéraire et le social) (LAJOLO, 1982, p. 05) Pode-se entender então que a humanidade é cercada por literatura, mas quais são as suas definições, funções e principalmente qual a validade de se escrever obras literárias em dias atuais? O sociólogo norte-americano Marshal McLuhan afirmou a um grupo de escritores em um congresso do Pen Club que eles eram os últimos de sua espécie pois “já não serve para nada escrever e publicar livros” (Lajolo, 1982, p. 07), opinião contrária a do Professor Vitor Manuel de Aguiar e Silva, “A literatura não é um jogo, um passatempo (…), mas uma atividade artística que, sob multiformes modulações, tem exprimido e continua a exprimir, a alegria e a

17. 17 angústias, as certezas e os enigmas do homem” (Lajolo, 1982, p. 07). Aguiar defende as propriedades e a importância da escrita destas obras, levando em consideração, a expressão de sentimentos e dúvidas ligadas ao homem, citando autores como Ésquilo, Ovidio, Shakespeare e Sholokhov, pontuando que a literatura é mutável e continua, havendo variações de tempo e modo. Opiniões divergentes que foram construídas por posições cultas inseridas por tradições culturais, temporais e socioeconômicas. A definição do que se enquadra ou não dentro da nomenclatura dada como literatura pode ser muito ampla, e a partir do seguinte questionamento realizado por Lajolo (1982) em sua obra que diz: “Será que é errado dizer que literatura é tudo aquilo que cada um considera literatura?” Pode-se chegar a reflexão de que existem determinados gêneros que se caracterizam, e se encaixam neste formato, como os contos, os best-sellers que são produzidos para um publico direcionado quase de forma industrial, as obras menos conhecidas, uma série de poesias escritas e guardadas na gaveta, e também as publicações que possuem diretamente objetivos de retorno financeiro, como feito pelo escritor James Frey com a obra Infanto juvenil “Endgame – O Chamado”. O autor, em entrevista à agência EFFE, afirmou que não se envergonha de produzir uma obra com claro apelo comercial. James Frey disse ainda que escreveu o livro mais divertido que poderia para um leitor cada vez mais entediado com o que lhe é ofertado pelo mercado. (Site Correio Braziliense “Escritor oferece US$ 500 mil para quem solucionar mistério de Endgame” 14/10/2014) Esta dúvida sobre o que se enquadra na literatura não é somente dos indivíduos fora dos meios acadêmicos ou literários, pois escritores de prestígio da literatura brasileira como Mário de Andrade e Rubem Braga, que apesar de não ocuparem a academia, também colaboraram com indagações para chegarem a uma conclusão, sendo assim, pode-se afirmar que literatura é tudo o que foi citado e também pode não ser, vai depender variavelmente do ponto de vista do sentido da palavra, além da situação a qual esta inserida a discussão sobre o assunto. Porém, realizando uma colocação mais técnica sobre o assunto pode-se

18. 18 dizer que a literatura funciona como um objeto social, e que para ela existir inicialmente necessita-se de dois pontos: primeiro, precisa ser escrita por um indivíduo, e em seguida lida por uma outra pessoa realizando um intercambio social – porém sabe-se que entre estes dois lados existe um corredor comercial muito grande envolvendo grandes corporações de edição, formatos gráficos e estéticos, além das livrarias e seus valores, o que acaba por afastar de certa forma aquele que deveria ser o maior beneficiado por estes conteúdos –. E para que esta obra seja, por fim, autenticada como Literatura – com L maiúsculo – é necessário que ela passe por avaliações que cumpram referendar a literariedade da mesma, atividade esta realizada por indivíduos especializados, como os cavalheiros que compõem a academia brasileira de letras, a crítica, a universidade e os intelectuais. É interessante citar também que uma literatura para ser considerada clássica não necessita ser contemporânea e nem da época dos escritores da Grécia e Roma antiga, ou da Portugal de Camões, e sim que sejam reconhecidas pelos grupos citados anteriormente como bem produzidas. A literatura é um objeto tão mutável que é imprescindível a hipótese de renovação, o que pode-se constatar no trecho a seguir da obra de Lajolo. O que é literatura é uma pergunta que tem várias respostas. E não se trata de respostas que paulatinamente, vão se aproximando cada vez mais de uma grande verdade, da verdade verdadeira. Não é nada disso. Não existe uma resposta correta, por que cada tempo, cada grupo social tem sua resposta, sua definição para literatura. Respostas e definições – vê-se logo – para uso interno. (LAJOLO. 1982, p. 24/25) Culler (1999) também exprime características que colaboram para a construção da definição de literatura e a sua utilidade na sociedade. A literatura, poderíamos concluir, é um ato de fala ou evento textual que suscita certos tipos de atenção. Contrasta com outros tipos de atos de fala, tais como dar informação, fazer perguntas ou fazer promessas. Na maior parte do tempo, o que leva os leitores a tratar algo como literatura é que eles a encontram num contexto que a identifica como literatura: num livro de poemas ou numa seção de uma revista, biblioteca ou livraria. (CULLER. 1999, p. 34) Estando ciente então da forma em que a literatura classifica-se, pode-se

19. 19 agora entrar em outra parte de sua composição. A literatura é ficcional e construída pelo homem para imitar a vida, como foi dito inicialmente pela citação de Aristóteles. Inserida no domínio das artes, a literatura se expressa através das palavras, podendo utilizar como ganchos iniciais eventos dos cotidianos, situações que de certa forma incomodam e até mesmo história dos povos que constituem uma certa comunidade, e a partir disso através dos olhos de um escritor se tornar viva, mas não uma obra descritiva presa a realidade, e sim uma obra transposta para uma realidade imaginária. Diferente do que se pensa esta forma de arte não se reduz somente a forma escrita e quebra o estado etimológico da palavra, derivada do latim, “Littera” – letra – o que nos leva novamente aos povos antigos de muitas civilizações, como os Gregos que narravam “A Ilíada” em seus 15.693 versos, as sagas islandesas e o Beowulf anglo-saxônico que foram, presumivelmente, cantados ou entoados por rapsodos e bardos profissionais, séculos antes de terem sido passados para o papel. Servindo como ferramenta direta na transmissão de informações entre escritor e leitor, a literatura, pode suportar em suas estruturas realidades ficcionais próximas ao mundo real, fazendo com que o outro, coloque-se naquela situação narrada chegando a uma reflexão sobre esta, ou simplesmente totalmente imaginativas onde transporta o leitor para mundos novos, e cheios de coisas que seu consciente nunca ousou construir, ou ainda, quebrar estas regras e acomodar os dois mundos em um só espaço, de maneira fantástica. O que nos leva ao próximo assunto desta pesquisa.

20. 20 1.1. Definição do Fantástico Agora que foram esclarecidas as principais características e as funções que compõem a literatura em um todo, pode-se realizar o recorte de uma de suas vertentes: A literatura fantástica. Esta, composta por três subgêneros, ao qual tomo a liberdade de utilizar a nomenclatura de trindade fantástica. Neste trecho da pesquisa, serão explorados os três pontos que compõe esta trindade, ampliando, através de citações de escritores da área, e a exposição de obras, o conhecimento sobre transcender o real, utilizando o lúdico como principal ferramenta, colaborando no entendimento da construção do universo Tolkiniano. Na obra “Introdução à literatura fantástica”, Tzvetan Todorov (2008), nos mostra que a literatura fantástica é composta por uma linha tênue, que transita entre o real e o imaginário, utilizando como exemplo o trecho da obra “O diabo apaixonado” de Jacques Cazotte, novela escrita em 1772, que trouxe justamente o embate entre o homem e a figura do diabo, que atualmente pode ser tratado de forma mais branda, porém naquela época ilustrava bem o conflito entre o homem e a imoralidade que o cercava. …definição do fantástico. Este exige que três condições sejam preenchidas. Primeiro é preciso que o texto obrigue o leitor ... a hesitar entre uma explicação natural e uma explicação sobrenatural ... A seguir esta hesitação pode ser igualmente experimentada por uma personagem; ... Enfim, é importante que o leitor adote uma certa atitude para com o texto: ... Estas três exigências não têm valor igual. A primeira e a terceira constituem verdadeiramente o gênero; a Segunda pode não ser satisfeita. (TODOROV. 2008, p. 38/39) O Autor explica em sua obra que o fantástico habita entre dois pontos. Denominado como “vacilação” este está entre a incredulidade total em um fato e a fé absoluta. Ao colocar-se entre estes dois pontos, encontramos um equilíbrio, porém existem outros fatores atenuantes para que isso aconteça. O leitor precisa realizar uma conexão com o personagem – ou personagens – da obra, pois a vacilação

21. 21 deste é a primeira condição do fantástico, porém, este é um fenômeno facultativo, que pode ou não se fazer presente. É importante também que o leitor tome determinada atitude frente ao texto reagindo as atitudes e ações tomadas pela narrativa, sendo estas de cunho simples ou mais complexas. Primeiro, é preciso que o texto obrigue o leitor a considerar o mundo das personagens como um mundo de criaturas vivas e a hesitar entre uma explicação natural e uma explicação sobrenatural dos acontecimentos evocados. A seguir, a hesitação pode ser igualmente experimentada por uma personagem (...). Enfim, é importante que o leitor adote uma certa atitude para com o texto: ele recusará tanto a interpretação alegórica quanto a interpretação “poética” (TODOROV, 2008, p. 39) Os estudos de Volobuef (2000) relatam que com o avançar dos anos a Literatura Fantástica deixou de ser utilizada somente em romances com intuito de assustar os leitores e tomou formas mais sutis, deixando de apavorar e emocionar para adentrar esferas temáticas mais complexas e reflexivas, como a ciência e a evolução do homem, a angustia existencial, desigualdade social, burocracias e a opressão. O que remete a uma das pontas do que denomina-se como Trindade Fantástica.

22. 22 1.2. A Trindade Fantástica Com a evolução da Literatura Fantástica até a sua chegada ao século XX foram criados subgêneros da mesma que possuem características próprias, transitando entre os sonhos, o sobrenatural, a magia e os avanços da civilização ligadas a tecnologia. Este triângulo literário se faz entre o Terror, a Ficção Científica e a Fantasia. Segundo Lovecraft (1987, p. 12), as obras de terror possuem fortes características responsáveis por assombrar o leitor e o fazer duvidar da existência do sinistro ao nosso redor. “A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte tipo de medo é o medo do desconhecido.” Autor de grandes obras ligadas a este subgênero, o estadunidense buscava com suas publicações confrontar as crenças do romantismo, iluminismo e do cristianismo expressando atitudes sínicas e pessimistas. Influenciado por outro autor do sombrio – Edgard Allan Poe – Lovecraft produziu obras como “The whisperer in darkness” e “The Shadow out of time”. A ficção científica trabalha com previsões do que pode ser o futuro, na relação entre homem e máquina, a ciência e suas descobertas. Ao contrário das outras duas, a ficção científica trabalha com uma realidade possível, apesar de não ser algo que está acontecendo no hoje, possuí um pé na realidade, levantando assim hipóteses e teorias na área científica. Obras como: “A máquina do tempo” e “Guerra dos mundos” do pioneiro H.G. Whells inspiraram outros autores e influenciaram o cinema mundial. Nomes como Pierre Boulle – “Planeta dos macacos” – e Júlio Verne – “Viagem ao centro da terra” – são bem conhecidos deste subgênero, além do Autor da fantasia “As crônicas de Nárnia”, C. S. Lewis, que lançou uma trilogia espacial na qual está o livro considerado ao ponto de vista popular, como a melhor obra de ficção científica. “Além do planeta Silencioso”, que tem como protagonista um Filólogo. Uma homenagem direta a Tolkien, objeto de pesquisa deste artigo, já que o mesmo também possuía esta formação em seu

23. 23 extenso currículo. Por fim, a última parte do quebra-cabeça, a Fantasia. Este é o tipo de literatura onde os elementos fantásticos são mais visíveis, perceptíveis. Os limites de criação são muito remotas por terem antecedentes mais antigos, por podermos encontrar a presença do fantasioso nos mitos e lendas dos povos antigos, e na tradição de literatura oral, na mitologia greco romana, egípcia, celta e nos contos de fadas. As fadas, príncipes e princesas em apuros oprimidas por bruxas más, elfos, anões, duendes e os seres elementais se fazem presentes neste subgênero, causando o encantamento do leitor e gerando uma conexão mais fácil – por conta da aparência dos personagens e seus poderes fora do normal, e muitas das vezes por ambos – o que nos leva novamente a vacilação e assim a classificação da obra como fantástica. Os exemplos mais contemporâneos desta vertente são a saga do bruxinho “Harry Potter” da autora J.K. Rowling, o já citado C.S. Lewis com “As Crônicas de Nárnia” e J.R.R. Tolkien, criador da Terra-média e sua diversidade. Figura. 1 – A Trindade Fantástica. Fonte: O autor. (2017)

24. 24 2. TOLKIEN Nesta sessão da pesquisa, será relatado alguns pontos da vida e evolução do autor que deu origem a Terra-média e suas criaturas, dando assim terreno para a aventura vivida por Frodo Bolseiro em sua jornada até Mordor, com o intuito de destruir o Um anel e acabar de uma vez por todas com o poder de Sauron perante todos. Na biografia “J.R.R. Tolkien – O senhor da fantasia”, White (2013), realiza a descrição cronológica dos eventos que inicia-se em Janeiro de 1892 com o nascimento de Tolkien na África do Sul e que culminam em 2 de setembro de 1973 com o seu falecimento. John Ronald Reuel Tolkien é fruto do casamento entre Arthur Tolkien e Mabel Suffield. No verão de 1896, Mabel, mudou-se com os filhos – John e Hilary Arthur Reuel – para a Inglaterra devido a problemas de saúde, e o que deveria ser uma curta temporada de reabilitação, tornou-se algo permanente com o falecimento de Arthur, que contraiu uma febre reumática perecendo no ano de 1896 no Estado Livre de Orange. Em 1900 surgiram grandes complicações financeiras para a família, e devido a escolhas religiosas – conversão da Igreja Anglicana para a Católica – a família de Mabel virou as costas para eles, e assim, ela também faleceu, vítima de diabetes – aos 34 anos – que não possuía tratamento na época. Deste ponto em diante os irmãos Tolkien passaram a ser tutelados pelo Padre Jesuíta Francis Xavier Morgan. Em 1908 os meninos foram realocados para a casa dos Faulkners, após uma temporada na casa da tia Beatrice, onde conheceu Edith Bratt por quem se apaixonou aos 16 anos e começou um relacionamento durante a primavera. No outono Tolkien realizou sua primeira tentativa frustrada de entrar em Oxbridge, além de ter sido separado de seu amor pelo padre Francis, que considerava o ato incorreto devido à idade minoritária de ambos. Um ano após, Tolkien triunfou em sua segunda tentativa para Oxbridge e conseguiu uma bolsa de estudos para a Faculdade de Exeter, em Oxford.

25. 25 Aos 21 anos reencontrou sua amada e mudou-se para o curso de Línguas e Literatura Inglesas, porém a Grã-Bretanha havia declarado guerra a Alemanha, – o que no futuro teria ligação direta com as batalhas nos campos de Pelennor descritas em O Senhor dos Anéis – forçando Tolkien a frequentar uma universidade praticamente vazia para terminar os seus estudos. Os momentos seguintes foram de glória pois ele recebeu um prêmio e logo em seguida o casamento se consolidou. Em 04 de junho de 1916 as sombras da guerra alcançam Tolkien, e assim o rapaz embarcou para a França junto com o exército britânico, onde entrou em ação no front, enfrentando os horrores dos campos onde mais de 500 mil soldados foram abatidos e por fim, voltou para casa em novembro afligido pela febre das trincheiras. Neste período que começou a escrever a obra intitulada “The book of the lost tales”, que futuramente tornar-se-ia “O Sillmarillion”, a gênese da Terra-média. Nos anos seguintes, nascem os filhos de Tolkien de seu relacionamento com Edith. Degraus são galgados até que lhe é concedida a cadeira de Rawlinson Bosworth, como professor titular de Inglês Antigo na Universidade de Oxford. Um grupo de literários começa a reunir-se liderados pelo escritor, e denominam-se como “The Coalbiters” – Os mordedores de carvão – entre estes nomes estão famosos linguístas como G.E.K Braunholtz e C.S. Lewis, amigo íntimo de Tolkien e escritor de “As crônicas de Nárnia”. Os Coalbiters perderam força e Tolkien junto à Lewis rumaram para um outro grupo de nome ambíguo que muito lhes agradavam, a reunião dos “Inkling” acontecia em um pub, que ainda funciona e serve como um santuário para estas figuras históricas. Na parede do bar há uma grande placa com os seguintes dizeres: C.S.LEWIS Seu irmão W.H.R. Lewis, J.R.R. Tolkien, Charles Williams e outros amigos se reuniam toda terça-feira de manha entre os anos1939-62 na sala dos fundos de seu pub favorito. Estes homens popularmente conhecidos como “Os Inklings”, reuniam-se aqui para beber cerveja e discutir, entre outras coisas, os livros que estavam escrevendo. (WHITE, 2013, pg. 124) Umas destas obras a começar a tomar forma seria “O Hobbit”, que fora lançado em Setembro de 1937 na Grã-Bretanha. Logo após, em Dezembro do

26. 26 mesmo ano, Tolkien a pedido da editora, começou a escrever “O Senhor dos Anéis”. Ambas as obras seriam intituladas no ano de 2001 como as obras mais vendidas segundo o New York Times, mas infelizmente, o Professor Tolkien, já viúvo e recém- nomeado Doutor Honoris Causa em Letras na universidade de Oxford havia falecido em 02 de Setembro de 1973. Figura. 2 – John Ronald Ruel Tolkien Imagem 3 – O criador da Terra-média, Autor no período em que frequentou as Fonte: White, 2013, p.249 trincheiras da primeira Guerra Mundial. Fonte: White, 2013, p.238 Mesmo pós-mortem, o autor recebeu títulos e homenagens, como ser eleito através de uma enquete organizada pela Amazon como o autor favorito do milênio, o “Tolkien Reading Day“ – dia de ler Tolkien, em tradução literal – organizado pela Tolkien Society, que acontece no dia 25 de março ao redor de todo o mundo, além, da adaptação das obras para o cinema. A trilogia de “O Senhor dos Anéis” faturou aproximadamente 3 bilhões de dólares em bilheteria. E são nestas obras que estão a diversidade explorada nesta pesquisa, o que nos leva ao próximo tópico.

27. 27 3. DIVERSIDADE CULTURAL Neste tópico será realizada uma breve explanação sobre os conceitos e intenções da diversidade cultural dentro da sociedade através de pesquisas e documentos publicados por organizações governamentais, para que haja assim o entendimento de como ela se encaixa nas obras de Tolkien, caracterizando a Terra- média como um ambiente diverso cultural. Vejamos então primeiramente como o Dicionário Aurélio define a palavra diversidade: Diverso: Adj. 1. Diferente, distinto. 2. Vário, variado. 3. Mudado, alterado. 4. Discordante, Divergente. § di·ver·si·da·de sf. (Dicionário Aurélio, 2010, p. 242) Segundo Tylor (2009) a cultura é a representação por meio de vários aspectos que permeiam um povo, englobando linguagens, culinárias, costumes, modelos de organização familiar, política e religião, separando o homem dos animais, justamente porque a cultura é algo que é aprendido independente de questões genéticas, afastando assim o cultural do natural. Neste grupo de características podem existir também outros fatores considerados peculiares, e que estabelecem um grupo de seres viventes habitantes de um determinado território. Este conceito consiste em compreender as diferenças existentes entre as múltiplas culturas ao redor do globo, formando assim a identidade cultural dos indivíduos ou da sociedade que estes compõem. Esta marca realiza a diferenciação de membros de um determinado local e o restante da população mundial. Esta pluralidade funciona então como uma ferramenta contra a Heterogeneidade, considerada o oposto da variedade e diferenciação. A sociedade mundial atual é considerada altamente plural, por conta das miscigenações que ocorreram através da imigração dos povos para outros países, decorrência de colonizações, revoluções, guerras, ou até mesmo junções familiares,

28. 28 o que resulta em uma população com alto teor de costumes e culturas diferentes. No ano de 2002 a UNESCO – United Nation Educational, Scientific and Cultural Organization – criou um documento de título “Declaração Universal Sobre a Diversidade Cultural” que reafirma estes conceitos deixando clara a importância da mesma para a sociedade, vejamos abaixo alguns pontos importantes deste documento: Artigo 1 – A diversidade cultural, patrimônio comum da humanidade: A cultura adquire formas diversas através do tempo e do espaço. Essa diversidade se manifesta na originalidade e na pluralidade de identidades que caracterizam os grupos e as sociedades que compõem a humanidade. Fonte de intercâmbios, de inovação e de criatividade, a diversidade cultural é, para o gênero humano, tão necessária como a diversidade biológica para a natureza. Nesse sentido, constitui o patrimônio comum da humanidade e deve ser reconhecida e consolidada em beneficio das gerações presentes e futuras. Artigo 2 – Da diversidade cultural ao pluralismo cultural: Em nossas sociedades cada vez mais diversificadas, torna-se indispensável garantir uma interação harmoniosa entre pessoas e grupos com identidades culturais a um só tempo plurais, variadas e dinâmicas, assim como sua vontade de conviver. As políticas que favoreçam a inclusão e a participação de todos os cidadãos garantem a coesão social, a vitalidade da sociedade civil e a paz. Definido desta maneira, o pluralismo cultural constitui a resposta política à realidade da diversidade cultural. Inseparável de um contexto democrático, o pluralismo cultural é propício aos intercâmbios culturais e ao desenvolvimento das capacidades criadoras que alimentam a vida pública. (UNESCO, 2002, pg. 3) Podemos concluir então que a Diversidade Cultural é composta pelo acúmulo de uma série de costumes e características de um povo ou comunidade dando-lhes assim identidade, sendo que estas podem se misturar com outros povos gerando novas culturas sem deixar de lado suas raízes. Neste caso estamos tratando da Diversidade Cultural no mundo real, mas como ela se encaixa dentro do mundo ficcional? Neste ponto, antes de dar sequência a pesquisa devo realizar uma pequena digressão ondei esclarecerei alguns pontos importantes relacionados às obras de Tolkien e o objetivo desta pequisa, que é justamente classificar as espécies existentes dentro das obras do autor, revelando assim como o real influenciou diretamente no lúdico na sua construção. Devo iniciar dizendo que como grande leitor das obras de Tolkien, seria de minha vontade esmiuçar o máximo possível a

29. 29 relação de todas as criaturas e personagens que habitaram a Terra-média ao longo de suas 3 eras – uma média de 185 personagens nomeados por Tolkien – porém isso requereria um espaço maior do que o cedido, então nos manteremos o mais próximo possível da linha de pesquisa realizando a classificação por espécies – algumas de suas vertentes quando necessários – e suas relações entre si. Outro fator importante é a apresentação inicial da criação da Terra-média através de uma divindade maior, seus terrenos e diferentes ecossistemas, o que influência muito a vida de seus respectivos habitantes. Estarão presentes também no próximo tópico do artigo algumas comparações entre criaturas, suas transformações ao longo do tempo devido forças místicas, e outros que são singulares, porém influenciam a cultura ao seu redor através de comando e poder. 3.1 Uma breve visão das 3 eras da Terra-média. Abriremos este tópico citando o livro que Tolkien considera a gênese da Terra-média, “O Sillmarillion”, que foi publicado em 1977, após o falecimento do autor. Neste, é mostrado através de uma narrativa com estruturas semelhantes ao do livro de Gênesis da Bíblia Sagrada, – reforçando os relatos de White (2013) referente as fortes influências de Tolkien no meio católico romano, sendo o autor devoto por fé pessoal e história familiar – como as terras de Arda foram concebidos por uma entidade maior, um deus chamado Eru. Havia Eru, o Único, que em Arda é chamado de Ilúvatar. Ele criou primeiro os Ainur, os Sagrados, gerados por seu pensamento, e eles lhe faziam companhia antes que tudo o mais fosse criado. E ele lhes falou, propondo- lhes temas musicais; e eles cantaram em sua presença, e ele se alegrou. Entretanto, durante muito tempo, eles cantaram cada um sozinho ou apenas alguns juntos, enquanto os outros escutavam, pois cada um, compreendia apenas aquela parte da mente de Ilúvatar da qual havia brotado e evoluía devagar na compreensão de seus irmãos. Não obstante, de tanto escutar, chegaram a uma compreensão mais profunda, tornando-se mais consonantes e harmoniosos. (TOLKIEN, O Sillmarillion, 2009, pg. 3) Eru, conhecido pelos elfos por Ilúvatar, vivia sozinho na imensidão, absorto

30. 30 por seus pensamentos, quando resolveu criar seres sagrados para lhes fazer companhia, sendo assim, surgiram os Ainur, seres sagrados. A estes Eru propôs que cantassem, dando-lhes temas, e estes assim o fizeram, alegrando seu criador por um longo tempo, porém um dos Valar, Melkor, que era considerado o maior deles, começou a cantar sua própria canção, realizando pertubações, mas foi impedido de continuar por Eru. Este processo repetiu-se por 3 vezes. Tempo depois Eru solicitou aos seus seres cantantes que estes observassem suas criações, e assim, através das canções entoadas por eles, foi criada Arda – Terra-média. Os Valar desceram para Arda e tomaram forma, entretanto esta era disforme e assim eles teriam de continuar o trabalho de aperfeiçoamento. Aqui iníciou-se a Primeira Era. Melkor mantinha o seu sentimento de inveja e o desejo de domínio de Arda, por isso trabalhou sozinho, escondido dos outros e de seu criador. Yavanna com uma poderosa canção criou duas árvores de luz, uma prateada, e outra com frutos dourados flamejantes, após este ato Valinor passou a ser iluminada por estas árvores, enquanto a Terra-média, continuava iluminada somente pelas estrelas. Neste momento os filhos primogênitos de Ilúvatar despertaram na Terra-média, – e aqui vemos a necessidade dessa descrição das eras, pois, através do surgimento destes povos, de diferentes raças, crenças e costumes que surgiram as interações populacionais, resultando na diversidade cultural – os Elfos. Diz-se que, no momento em que Varda encerrou seus trabalhos, e eles foram demorados, quando Menelmacar foi subindo pelo céu, e a chama azul de Helluin cintilou nas névoas acima dos limites do mundo, nessa hora os Filhos da Terra despertaram, os Primogênitos de Ilúvatar. Perto da lagoa de Cuiviénen, a Água do Despertar, iluminados pelas estrelas, eles acordaram do sono de Ilúvatar. E enquanto permaneciam, ainda em silêncio, junto a Cuiviénen, seus olhos contemplaram antes de mais nada as estrelas dos céus. Por isso, eles sempre amaram o brilho das estrelas, e reverenciam Varda Elentãri mais do que qualquer outro Vala. (TOLKIEN, O Sillmarillion, 2009, pg. 47) Melkor fora descoberto em sua revolta, preso e enviado para o Salão de Mandos, e após anos cumprindo a sua pena, fora solto. Arrependido de seus atos mesquinhos, direcionou sua inteligência para ensinar os elfos muitas coisas boas. Utilizando estes conhecimentos Fëanor, o maior elfo, criou três Silmarilis – orbes de pura luz – utilizando pedaços das brilhantes árvores anteriormente criadas por

31. 31 Yavanna. Porém Melkor havia arquitetado um plano desconhecido por seus superiores, roubou as Silmarilis dos elfos, e com a ajuda de Ungoliant, a grande aranha – representação da essencia do mal – destruiu as árvores de luz, refugiando- se na Terra-média. Então a Antiluz de Ungoliant subiu até as raízes das Árvores, e Melkor de um salto escalou a colina. E, com sua lança negra, atingiu cada Árvore até o cerne, ferindo todas profundamente. E a seiva jorrou como se fosse seu sangue e se derramou pelo chão. Contudo, Ungoliant tudo sugou; e, indo de uma Árvore a outra, grudou seu bico negro nos ferimentos até que as esgotou. E o veneno da Morte que ela continha penetrou em seus tecidos e as fez murchar, na raiz, no galho, na folha. E elas morreram. (TOLKIEN, O Sillmarillion, 2009, pg. 85) Fëanor em companhia de seus sete filhos jurou tomar de volta o que lhes pertencia, mas fora proibido pelos Valar, assim, roubou com ajuda de um exército, barcos élficos, tendo que enfrentar sua própria raça para isso. Outra parte do exército partiu para a Térra Média atravessando as terras geladas do Norte, entre eles estava uma figura que seria muito importante na 3º era, a elfa Galadriel. Assim teve sequência a Primeira Era. – Era I. Despertam os filhos mais novos de Ilúvatar, os Homens. Pode-se perceber com o excerto abaixo que nem todas as criaturas já despertas consideravam os Homens iguais a eles. Explicitando assim o primeiro sinal de interação social e segregação racial. Ao primeiro raiar do Sol, os Filhos Mais Novos de Ilúvatar despertaram na terra de Hildórien, nas regiões orientais da Terra-média; mas o primeiro Sol raiou no Oeste, e os olhos dos homens que se abriam se voltaram para ele; e seus pés, quando Perambularam pela Terra, acabavam indo naquela direção. Atani foi como os Eldar os chamaram, o Segundo Povo; mas também os chamavam de Hildor, os Sucessores, entre muitos outros nomes: Apanónar, os Posteriores; Engwar, os Enfermiços; e Firimar, os Mortais. Ainda os chamavam de Usurpadores, Desconhecidos, Inescrutáveis, Malditos, Desajeitados, Temerosos-da-noite, Filhos do Sol. (TOLKIEN, O Sillmarillion, 2009, pg. 123) A grande perseguição por Melkor acontece, porém este teve tempo suficiente para formar seu próprio exército composto por Orcs, Dragões e Balrogs, e ao chegarmos próximo ao fim desta era, os reinos élficos já haviam sido descobertos e destruídos, e muitos elfos haviam encontrados seus caminhos através dos salões de Mandos até o fim do mundo. Porém Melkor felizmente fora derrotado e enviado

32. 32 para o vazio, além das bordas do mundo, dando fim assim a Primeira Era. Ora, os orcs que se multiplicavam na escuridão da terra tomaram-se fortes e cruéis, e seu senhor sinistro os encheu de desejo de devastação e morte. Eles saíram então dos portões de Angband sob as nuvens que Morgoth fez surgir e passaram em silêncio para os planaltos do norte. Dali, de súbito, um enorme exército entrou em Beleriand e atacou o Rei Thingol. (TOLKIEN, O Sillmarillion, 2009, pg. 111) A Segunda Era teve início, e como um presente aos homens leais, os Valar, construíram uma ilha no meio do mar onde estes homens poderiam viver mais tempo dos que os homens comuns, e a esta, fora dada o nome de Númenor. Ninguém desconfiava que na Terra-média ainda vivia um grande servo de Melkor, Sauron, que ansiava pelos mesmos objetivos que seu mestre, assim então, este passou a ser o Senhor do Escuro, tomando uma forma entre os elfos, e os ensinando a forjar anéis do poder. Outrora havia Sauron, o Maia, que os sindar em Beleriand chamavam de Gorthaur. No início de Arda, Melkor seduziu-o para sua vassalagem, e Sauron se tomou o maior e mais confiável dos servos do Inimigo; e também o mais perigoso, pois podia assumir muitas formas; e por muito tempo, se quisesse, ainda pôde aparentar nobreza e beleza, de modo a enganar a todos, à exceção dos extremamente cautelosos. (TOLKIEN, O Sillmarillion, 2009, pg. 363) Estes anéis possuíam muitas funções, entre elas curar e aumentar o tempo de vida – homens e anões também foram presenteados. Em segredo Sauron forjou no fogo das montanhas da perdição um anel para si. Um anel mestre, que possuía o poder de controlar os outros, fazendo-os obedecer a sua vontade, – Um anel para a todos governar, um anel para encontrá-los, Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los – porém ao botar o Um anel os outros três portadores – elfos – perceberam as suas intenções e os retiraram, escondendo-os. Uma destas elfas era Galadriel, e o outro Elrond. Houve outra grande guerra liderada por Ar-Pharazôn – o dourado – rei de Númenor, e neste embate Sauron fora derrotado e aprisionado, mas ao retornarem para a ilha, este começou a corromper os reis, que na época se incomodavam muito com a proximidade da morte e cobiçavam a imortalidade dos elfos, cedendo assim

33. 33 as palavras de Sauron e planejando um ataque direto a Valinor. A investida fracassou e por conta desta traição, Númenor fora tomada pelas ondas do oceano, e como precaução futura Valinor fora retirada do mundo, e sua base destruída. Alguns Númenorianos fiéis aos Valar escaparam para a Terra-média, fundando os reinos de Arnor ao norte e Gondor ao sul. Sauron também retornou a Terra-média. Em uma última aliança entre Homens e Elfos, Sauron fora derrotado, perdendo o Um Anel e também sua forma física. Isildur que derrotou Sauron em batalha, teve a missão de levar o Um Anel até a montanha da perdição e o destruir, porém, este fora corrompido pelo poder do anel que possuía parte de Sauron em sua composição, e assim o guardou para si, um grande erro, pois tempo depois este fora assassinado, e o anel se perdeu. E neste ponto teve fim a Segunda Era da Terra-média. Então todos escutaram, enquanto Elrond, com sua voz clara, falava de Sauron e dos Anéis de Poder, e de sua forjadura na Segunda Era de mundo, há muito tempo. Uma parte da história era conhecida por alguns ali, mas a história completa ninguém conhecia, e muitos olhos se voltavam para Elrond com medo e surpresa, enquanto ele contava sobre os ourives élficos de Eregion, e de sua amizade com Moria, e de sua avidez de conhecimento, através da qual Sauron os seduziu. Pois, naquela época, ainda não era declaradamente mau, e eles aceitaram sua ajuda, tornando-se hábeis, enquanto Sauron aprendia todos os segredos, e os traía, forjando secretamente, na Montanha do Fogo, o Um Anel para dominar todos os outros. Mas Celebrimbor sabia das verdadeiras intenções de Sauron, e escondeu os Três que tinha feito; então houve guerra, e a terra foi arrasada, e o portão de Moria foi fechado. (TOLKIEN, O Senhor dos Anéis, 2004, pg. 251) Com o início da Terceira Era, os Magos chegaram a Terra-média, vindos de Valinor, com a missão de vigiar um possível retorno de Sauron, estes eram cinco, Saruman, o branco; Gandalf, o cinzento; Radagast, o castanho; Allatar e Pallando, os magos azuis. Exatamente quando as primeiras sombras foram percebidas na Floresta das Trevas, surgiram no oeste da Terra-média os ístari, que os homens chamavam de Magos. Na época ninguém sabia de onde eles eram, à exceção de Círdan dos Portos, e apenas a Elrond e a Galadriel ele revelou que haviam chegado pelo Mar. Daí em diante, porém, dizia-se entre os elfos que eles eram mensageiros enviados pelos Senhores do Oeste para contestar o poder de Sauron, se ele voltasse a se erguer, e para influenciar elfos, homens e todos os seres vivos de boa vontade para com atos corajosos. (TOLKIEN, O Sillmarillion, 2009, pg. 281/282)

34. 34 Após trezentos anos de paz vigiada por estes guardiões, o esperado aconteceu, Sauron retornou em Mordor, terra negra, porém não possuía mais sua forma corpórea. Na adaptação cinematográfica realizada por Peter Jackson, vemos a retratação desta força na forma de um grande olho em chamas, que do alto de uma torre negra observava tudo ao seu redor. Alguns anos depois nasceu o verdadeiro herdeiro do trono de Gondor, Aragorn, filho de Arathorn, que fora criado em segurança na Valfenda, protegido pelo elfo Elrond. Neste período, Bilbo Bolseiro, um pequeno Hobbit deixava o Condado, a mando de Gandalf, acompanhado por 13 bravos anões, com a missão de retomar as Montanhas Solitárias, antiga morada desses anões, e agora tomada por um impiedoso dragão de nome Smaug. E é nesta jornada que Bilbo encontra o Um Anel, que até então era propriedade de uma criatura esquelética e curiosa, que habitava as profundezas de uma toca de Orc, um ser transformado pelo poder do anel de nome Gollum. É preferível parar esta linha do tempo neste espaço, pois a partir daqui não seria acrescentada nenhuma nova criação realizada por Eru e seus Valar. Todos os acontecimentos seguintes seriam regidos por magos envoltos por traição e Sauron em sua busca por poder, e estes serão catalogados no tópico seguinte. Figura. 4 – O Mapa da Terra-média. Fonte: Pinterest.com1 1 – Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/42713896438512872/ – Acesso em Abr. 2017.

35. 35 3.2 – Os Habitantes de Arda. A partir deste ponto será realizada a catalogação dos seres e criaturas que habitam a Terra-média, – com exceção de Eru que é um ser supremo e não possuí características físicas descritas em “O Sillmarillion” – assim como as suas principais características, pois elas que remontam as suas origens, costumes e culturas, para que assim haja a interação e também a miscigenação dos povos, chegando no ponto a ser buscado por este trabalho: A diversidade cultural. 3.2.1 – Ainur. Espíritos imortais criados por Erú para lhes fazer companhia e servir. Criadores das terras de Arda através da música que cantavam para o seu mestre e futuros arquitetos da Terra-média. Nem todos os Ainur desceram até Arda, mas os que fizeram assumiram formas físicas tornando-se Valar – os mais fortes – ou Maiar – os mais fracos. Tolkien em suas escrituras feitas na obra “The History of the Middle Earth” (2002) retrata os Ainur como anjos, criaturas puras, e ai pode-se perceber novamente as referências religiosas da cultura de Tolkien, em sua vida real, tomando forma em sua literatura ficcional. Alguns destes Ainur foram responsáveis pela sub- criação de outras criaturas de Arda, como Manwë, rei de Arda, senhor dos ares e das aves, Ulmo, senhor das águas e dos mares, Aulë, governante de toda a terra, dos materiais nela contidos e criador dos anões. Entre os Ainur que tornaram-se Valar, temos Melkor, porém, como este traiu Illúvatar, perdeu o seu título entre os irmãos, tornando-se assim o primeiro senhor da escuridão, título que carregou até sua derrota. – o segundo desta linhagem viria a ser Sauron. Então, falou Ilúvatar e disse: - Poderosos são os Ainur, e o mais poderoso dentre eles é Melkor; mas, para que ele saiba, e saibam todos os Ainur, que eu sou Ilúvatar, essas melodias que vocês entoaram, irei mostrá-las para que vejam o que fizeram E tu, Melkor, verás que nenhum tema pode ser tocado sem ter em mim sua fonte mais remota, nem ninguém pode alterar a música contra a minha vontade. E aquele que tentar, provará não ser senão

36. 36 meu instrumento na invenção de coisas ainda mais fantásticas, que ele próprio nunca imaginou (TOLKIEN, O Sillmarillion, 2009, pg. 6) 3.2.2 – Elfos. Considerados os primeiros filhos de Erú/ Ilúvatar, são criaturas de extrema beleza, comparados diretamente aos Valar, porém com menos estatura e poder. São imortais – ou pelo menos, enquanto durar o reino de Arda – não envelhecem e nem adoecem. E se de alguma forma forem feridos ou sofrerem de grande desgosto, seu corpo morre, porém sua alma permanece viva, sendo enviada para as Mansões de Mandos, onde aguardarão para retornar em um corpo idêntico ao anterior e com as mesmas lembranças. São criaturas extremamente orgulhosas e que pensam bem nas consequências de seus atos antes de realizá-los. Altos, de longos cabelos, orelhas pontudas, olhos expressivos e em grande maioria questionadores. Elfos se casam somente uma vez e são totalmente fiéis aos seus parceiros. Estes seres realizam tarefas com maestria, podendo ser trabalhos com ferro, música ou qualquer outro tipo de arte, além de possuírem altos níveis de habilidades de batalha, seja empunhando espadas, seja utilizando um arco e flechas. A alimentação élfica é muito restrita, pois eles não se alimentam de carne, comendo somente vegetais, folhas e lembas – pães élficos. Tolkien criou também para os seus elfos, duas línguas diferentes, o Quenya e o Sindarin, ambos com um alfabeto fonético próprio. Porém nem todos os elfos são iguais e possuem a mesma origem. Apesar de serem imortais, os elfos podem procriar, sendo assim criar as suas próprias linhagens. Como foi relatado, Galadriel é uma elfa da primeira geração criada por Erú que migrou para a Terra-média e governa Lórien ao lado de seu marido, já Legolas, é filho de Thranduil, rei da floresta das trevas, nascido na Terceira Era. Sendo assim, os elfos podem gerar suas próprias famílias criando ramificações culturais e possuir diferentes localizações e reinados dentro da Terra-média. Um detalhe comportamental que deve ser ressaltado é que os elfos não se relacionam bem com os anões devido a conflitos de guerra não resolvidos. Glorfindel era alto e ereto; o cabelo de um dourado brilhante, o rosto belo e

37. 37 jovem, temerário e cheio de alegria; os olhos eram brilhantes e agudos, a voz parecia música; em sua fronte se alojava a sabedoria; na mão, a força. [...] O rosto de Elrond parecia eterno, nem velho nem jovem, embora nele se inscrevesse a memória de muitas coisas, alegres e tristes. Os cabelos eram escuros como as sombras da noite, e sobre a cabeça via-se um diadema de prata; os olhos eram cinzentos como uma noite clara, e neles havia uma luz como a das estrelas. Parecia venerável, como um rei coroado com muitos invernos, e ao mesmo tempo vigoroso como um guerreiro experiente, no auge da força. Era o Senhor de Valfenda, poderoso entre elfos e homens. (TOLKIEN, O Senhor dos Anéis, 2004, pg. 235) Figura.5 – Galadriel Figura.6 – Elrond Figura.7 –Thranduil Senhora de Lórien Senhor de Rivendell Rei da Floresta das Trevas Fonte: Pinterest.com2 Fonte: Pinterest.com3 Fonte: Pinterest.com4 3.2.3 – Homens. Leve em consideração esta vertente como raça, Tolkien não limita em suas obras a raça Homem como definição do sexo masculino, e sim um todo, homens, mulheres e crianças. Deve-se ressaltar neste ponto que foi uma mulher a responsável pela queda do Rei Bruxo – um dos Nazgul – na Batalha dos Campos de Pelennor. O segundo plano de Ilúvatar para herdar os reinos da terra, mas diferente dos elfos que possuíam a imortalidade os homens ganharam de presente de seu pai o direito a morte. O primeiro homem levantou-se assim que o primeiro sol surgiu no céu da Terra-média, e caminharam para o Oeste encontrando-se com os elfos. Este chamava-se Edain, também conhecido como Pai dos Homens. O grupo de homens 2 – Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/412149803384127718/ – Acesso em Abr. 2017. 3 – Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/370561875576621877/ – Acesso em Abr. 2017. 4 – Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/462674561701253295/ – Acesso em Abr. 2017.

38. 38 foi tornando-se maior ao longo do tempo e logo a Terra-média estava povoada por diferentes grupos desta espécie. Tolkien utiliza o homem nas suas obras para realizar a aproximação do leitor da realidade para o mundo fantástico que criou. Igualmente fortes para guerrear e habilidosos para construir, os homens criaram os reinos de Arnor e Gondor após os terríveis acontecimentos em Númenor citados previamente. Entre estes homens estavam os ascendentes de Aragorn, que futuramente assumiria o trono de Gondor que era seu por direito. Pode-se caracterizar o homem da Terra-média como bravo e heroico, mas nem sempre fiel. Existem grandes exemplos na literatura de Tolkien de personagens envoltos por sede de poder e traição, como por exemplo, Grima, língua de cobra, que tem a função de aconselhar o Rei Théoden, porém o manipula a mando de Saruman, ambos lutam ao lado de Sauron, assim como os Haradim, homens do sul da Terra- média. Pode-se encontrar relatos de grandes feitos realizados por homens ao longo das três eras, e é justo dizer que eles tiveram grande parte nas vitórias ocorridas nas guerras, diferente dos

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